29/07/2026

Me faz lembrar do porquê eu queria morrer. Hoje eu ainda gosto dos meus pais,  dos times com os quais me identifico, de alguns amigos, de ver minha infinidade de filmes e tentar passar alguma coisa para esses jovens esquisitos.

24/07/2026

Vibra que é teu, Leão do Sul 🇦🇹🦁

Sempre fui muito apaixonado por todos os clubes em que me envolvi. Quando meus pais vieram a Santa Catarina, houve a possibilidade de reencontrar o Hercílio Luz com o qual meu pai conviveu em sua juventude. Poderia ser mais um ritual de experimentação para mim e refeita de passos para ele, mas novamente não soubemos fazer pela metade ou não ter o envolvimento mais completo. O ritual envolve calcular a diferença de temperatura entre as cidades, o tempo de estrada, as visitas possíveis aos parentes em Tubarão, e calcular os compromissos cercanos ao dia do jogo e ao dia seguinte, estes que tentam irromper essa paixão. Mas lá novamente estivemos.

A familiaridade com o estádio Aníbal Costa também foi imediata. Do primeiro jogo ainda precisávamos de carteira de vacinação e máscara para entrar. Fora dois anos sem o clube perder um único jogo em casa, o que se tornou recorde nacional à época. Mas com o tempo nos vacinamos para os maus resultados. Foram cinco lideranças anteriores, entre campanhas no Catarinense, na Copa Santa Catarina e na fase de grandes grupos da D nacional, todas infrutíferas. Eliminações e vice-campeonatos. E a fila de títulos de 60 e tantos anos.

Após a Libertadores da América do Botafogo em 2024, em Buenos Aires, achei que não teria mais o que ver. Quando o Hercílio assumiu a liderança da B estadual ao vencer o concorrente direto Metropolitano, encaramos o "lá vamos nós de novo" para o quadro de liderança temporária e incertezas. Mas o trabalho se mostrou sólido, qualificado, a sequência de oito vitórias e os resultados paralelos colaboraram. A espera pelo título iria acabar para o lado vermelho em Tubarão.

Um jogo dramático, com o tempo a moer segundos e a desconjuntar a pressão arterial contra o combativo time do Caravaggio, indicaria o Renascimento de um Leão campeão. Um clube centenário, que passou pelos títulos estaduais na elite, a enchente destrutiva da cidade em 1974, que matou tanta gente quanto no RS em 2024; a licença, a retomada, a união como Tubarão de um só clube, a desunião, a retomada em passos próprios. A covid, os vices, o DJ Alex que informava públicos abaixo dos mil e que pôde informar para os quase 3 mil daquela noite: é campeão. O apito do árbitro, os sinalizadores,  a história realizada.

Quis o destino no tango da vida que o senhor João Olavio Falchetti, ex-presidente do clube e ex-prefeito da cidade, que eu conhecia pela lenda do Sr. Delírio, seu pai, fosse-me apresentado em junho em Palhoça, com o mesmo sorriso que se multiplicava e hoje se multiplica nas fotos de lembrança. Quis o destino que viesse a falecer um dia após o esperado e sonhado título. Um homem dedicado a tantas realizações esperou por esta última em que tantos corações compassavam juntos.

Uma conquista dessas não aquece somente pelos tambores da Império Vermelho, pelos trabalhos de bastidor de panelas de comida a organizações de bagageiro a cada viagem do clube. Aquece pelo futebol do interior que, em alguma arquibancada do concreto resistente ao tempo, também resiste, como representação e união local. Vibra que é teu, Leão do Sul 🦁









28/06/2026

Já não me cobro mais velocidade ou desempenho, mas os demais e a sociedade me cobram. Posso mandá-los às favas? Posso?

02/06/2026

Seria julgado

Seria julgado se não dirigisse 

Seria julgado se não tivesse um carro

Seria julgado por ser motorista dos outros

Seria julgado por dirigir embriagado

Seria julgado por não prestar o teste do bafômetro

Seria julgado por ter um carro velho

Seria julgado por ter um carro novo e correr

Seria julgado por ter um carro velho e correr

Seria julgado por ter um carro novo e não correr

Seria julgado por ter um carro velho e não correr

Seria julgado por um farol queimado

Seria julgado pelos trajetos que faz

Seria julgado pela garagem

Seria julgado pelo atraso tendo carro

Seria julgado por quem deu carona

Seria julgado por quem não deu carona

Seria julgado se dirigisse

31/05/2026

Consigo sentir Quintana 

Que não me engana

Me aconselha

Ou ao menos ergue a sobrancelha

Consigo sentir Quintana em cada passo

Que eu galgo 

Como se ouvisse algo

Ao meu ouvido Quintana

Eles passarão

Ele me acompanha



29/05/2026

Há dias em que naturalmente estou abatido. 


E há dias que naturalmente me abatem.

22/05/2026

20/05/2026

Creio que o ser humano esteja cada vez mais insatisfeito porque tem cada vez menos o que conquistar. Matam-se as dúvidas, as novidades. Tudo está pronto na pesquisa, nos arquivos de dados, nas imagens que se multiplicam. Não tem porque eu fazê-lo porque tão logo está feito ou já foi feito. Perde-se o encanto pela novidade, perde-se o aspecto cada vez mais gasto da novidade. Não há mais novidade. A repetição é obsoleta. O que já foi feito deve ser replicado somente pela máquina. A manufatura é perda de tempo. Se sobrar o tempo não sabemos onde aplicá-lo. Vou dormir.

Não se apaixonou mais, nem precisou conviver mais com desequilíbrios emocionais descabidos. Sorriu a isso. Mas meio amarelo. Meio, pela metade, e amarelo. Sinônimos. Redundante. Pleonasmo.

Também são pela metade e amareladas as pessoas que agridem antes e não assumem suas próprias culpas.

19/05/2026

A máquina se torna humano 

Humano se torna máquina 

A máquina é programada 

O ser humano é descartado

17/05/2026

Não é porque não achou modelo de vida melhor que o antigo não era obsoleto.


Observações: preciso fazer uma newsletter. Sugestão, lembrança ou pergunta?

19/04/2026

Nervos

Tenho problema nos nervos

Nos trevos sem quatro folhas

Nas escolhas que reaqueço 

No preço dessas escolhas


Tenho problemas que não devo

Me preocupar e me preocupo

Um suco de más escolhas

E folhas e folhas de luto


Tenho problemas que esqueço 

Tantos outros que nem meço 

Emblemas do que mereço 

A maioria não peço 


Problemas que atravesso

Sem como sair pelo inverso

Sem como deixar de ser néscio 

Enferma a mente que conheço


Tenho problema nos nervos

Enfermas peças pequenas

Interligadas ao esquema

Ferroadas em frevo


22/02/2026

Eu tentei ficar impassível, mas não consegui. Não consegui ficar impassível às fotos das crianças desaparecidas que voltam a estampar caixas de leite.

14/02/2026

Cuidados na praia

Cuidado na praia é avisar o amigo que o tempo no sol já foi demais. Hora de se recolher ou retocar o protetor solar.

Cuidado na praia é seguir a orientação das bandeiras dos guarda-vidas que estão ali para isso e teoricamente conhecem melhor a praia, o trecho em questão.

Cuidado na praia é reconhecer que o mar é abusivo e te puxa sem que tu queiras.

Cuidado na praia é devolver a bolinha, a bola que sobrou de um passe errado no esporte. Cuidado na praia é respeitar uma distância para os demais para que isso não seja uma constante.

Cuidado na praia é respeitar o limite de decibéis na música e respeitar o gosto musical do vizinho, que é diferente do seu.

Cuidado na praia é desviar das crianças que, tu sabes, não desviarão de ti.

Cuidado na praia é cumprimentar os cachorros que eles também tanto gostam de água. Não acredito na restrição deles da praia, mas cuidado na praia é também entender que se cada família levar o seu ou os seus, não vai dar certo. Tenha cuidado na praia.

Cuidado na praia é ser cordial no vai e vem de turistas e de quem chega e quem sai dos às vezes improvisados estacionamentos.

Cuidado na praia é cuidar para não olhar muito tempo para mulher do próximo. Nem para o homem. Cada um com seus cuidados.

Cuidado na praia é admirar os idosos que fazem dessa caminhada ou tempo de observação ao mar uma terapia.

Cuidado na praia é ser respeitoso com os vendedores ambulantes que precisam desse tempo para sobreviver os próximos meses.

Cuidado na praia é recolher o lixo. De preferência mesmo seria nem gerar.

Tenha cuidado na praia. Respeite os animais marinhos e os terrestres. E uns aos outros.

15/01/2026

Pároco

Eu tinha de tudo mais

Menos o que mais preciso

Eu nunca quis um amor só 

Só um amor

Eu nunca quis um amor só 

Só um amor


Gondoleiro vai 

Pelas águas fluviais

Petra Costa vai

Pelos olhos de ressaca

Capitu vai

Pelos olhos das capitais


Machado de Assis

Não corta o mal pela raiz

Machado é com CH

Não chega ao X da questão 

Não chega à conclusão 

Boa sorte ao leitor

Responder as memórias póstumas do autor


Eu tinha de tudo mais

Menos o que mais preciso

Eu nunca quis um amor só 

Só um amor

Eu nunca quis um amor só 

Só um amor


Eu era um pároco 

De filosofia e um oco ainda

A cada dia

Eu era um pároco 

Pelo que eu não toco

Mas até queria

Por vezes não sinto saudade de como era o mundo, mas de como eu era inocente ao contemplá-lo.

Fios de poste

Quantos fios de poste

Conectaram         sua vida, seus laçarotes?


Quantos fios de poste

Conectaram do gatonet 

Ao lost 

Do gatonet ao post


Quantos fios de poste

Conectaram do gatonet 

Ao trending topic 

Do gatonet aonde fosse


Quantos fios de poste

Conectaram a fake news 

Ao impostor

Do gatonet ao sonegador de imposto 


Quantos fios de poste

Conectaram sua vida a outros homens

Os mitos, os lobisomens 

O que aparece ao que se some 

O que se soma e o que ainda não tem nome

O sentimento que mata

Ou que produz a fome


Quantos fios de poste

Produziram

Do gatonet ao ghosting 

Os estilingues de agosto 

O estilo sobreposto 

Os filhos, AI e os rostos

Fios de poste emendados 

Fios de poste depostos 

Fios de poste cacheados 

E programas de Luz para Todos 

Ainda falo o que me coço 

Por cima dos ombros dos moços 

Pelos fios dos postes 

Marionetes, mascotes 

Por cima das mensagens 

Por cima de nossos destroços 



Fica com o troco


31/12/2025

O Fim da Viagem / O Começo de Tudo

Filme de 2019, direção de Kiyoshi Kurosawa, O Fim da Viagem, Começo de Tudo é um filme propício para assistir na virada do ano, nas férias, no recesso. Um drama leve sobre a vida de uma jovem jornalista japonesa, que, introspectiva e sonhadora, viaja com sua equipe de reportagem para gravar um programa no Uzbequistão. Lá, sua mentalidade se expande e se transforma, quando impressões iniciais podem ou não serem confirmadas. Suas verdades são confrontadas e suas ideias para voltar à baía de Tóquio podem mudar.

Yoko (Atsuko Maeda) demonstra alguma inacessibilidade, um certo desentrosamento com a equipe de gravação. Logo no começo do filme ela chega atrasada à estação onde iria com os demais ao coração do Uzbequistão. A equipe não a esperou. Tirando as horas do extenuante serviço, Yoko gosta de passar o tempo sozinha, a passear para espairecer ou a falar ou tentar falar com o namorado, um bombeiro na baía de Tóquio.

O Uzbequistão prepara muitas surpresas. Um guia de pesca sem paciência. Machista com a presença feminina que afugentaria os peixes. As tentativas de gravação no lago são frustrantes. Uma cozinheira de comida típica atrapalhada com o cozimento do arroz, reclamando que não foi previamente avisada do que deveria preparar, sobre a gravação, mas que depois se desculpa e, mesmo com a suposta falta de lenha na cozinha, enche a equipe de mimos e preciosidades. Yoko fica confusa com o comportamento das pessoas e as diferenças culturais. Ela é destemida, um tanto impulsiva, independente e investigadora.

O filme desenvolve diferentes personagens. O tradutor do grupo se afeiçoa a Yoko. Um dos rapazes das câmeras também não é lá de muita paciência. Outro dos gravadores é experiente e já desenvolveu vários trabalhos artísticos. Yoko é jovem e cheia de dúvidas. Ela revela que seu sonho é cantar em apresentações, deseja voltar ao Japão e ser a estrela de um musical. As gravações do programa de variedades são questão de tempo; um passatempo. Um serviço temporário.

O desenvolvimento da trama também mostra aos espectadores os bastidores das gravações de filmes e programas de reportagem. Muito trabalho de convencimento, tomadas que necessitam repetição, acordos feitos por baixo dos panos, mãos molhadas, roteiros decorados e sorrisos falsos. Um dos mais pacientes é o tradutor que, além do mais, precisa fazer o elo, a ponte entre duas culturas asiáticas mas diferentes. Temur, como ele se chama, ainda reserva uma história pessoal ligada ao Japão que é digna de documentação. Quanto à gravação do programa em si, traz altos e baixos, como é a vida, com produções que rendem tempo, economizam dinheiro e outros passeios que saem caro e não saem como o planejado. Há surpresas sempre no caminho da equipe japonesa.

Yoko se afeiçoa aos animais. Se encanta por um bode, que inicialmente ela achava ser uma cabra, em um terreno hostil. Ela convence a equipe a resgatar o bode Okko, que na verdade, na complexidade da operação, não passa de um simulacro, pois a libertação urbana ao bode poderia resultar em ser devorado por outros animais selvagens. Qual o lugar de Okko? Qual o nosso lugar no mundo?

Yoko se questiona. O que a emociona é cantar, entregar-se de corpo e alma ao tema da música. Seu sorriso diante das câmeras para preparação do programa já não é o mesmo quando iniciara na profissão. Uma das cenas revoltante é quando exigem que ela, extenuada, exausta, sob riscos de complicações sérias, é exigida a repetir gravações em um brinquedo kamikaze em parque de diversões. Uma falta de tato, de senso da equipe e da própria, em momentos irresponsável consigo mesma, apesar do crescente alerta do próprio dirigente do brinquedo. Ela não deveria ser exposta a isso.

O filme também mostra que o trabalho de repórter, apesar da recompensa e da fama, pode ser enfadonho e cheio dos chamados ossos do ofício. Entregar na água até os joelhos e num barco de pesca, resgatar animais em vão, passar pratos estranhos e suspeitos, encarar os desafios da lei e de ser mulher em sociedades que possam ser opressoras. Apesar da desconfiança, Yoko termina esperançosa com o Uzbequistão e com um sentimento de agradecimento e até pertencimento diante das infindáveis planícies e montanhas. Inspiração para ela cantar e encarar o próprio Japão e sua vida de outra maneira, talvez até com a recuperação do sorriso após o jorrar das lágrimas.

Nota final para O Fim da Viagem / Começo de Tudo

⭐⭐⭐⭐