A cidade e as transformações que provoca na gente. A cidade e as transformações provocadas nela mesma. Como não estranhar uma cidade em que você não visita há duas décadas? Como não estranhar voltar à cidade natal após morar em outras? Como não estranhar o bar que já não está mais ali, o desvio no sentido de uma das ruas principais, o prédio demolido para virar estacionamento?
Sem dúvidas, entre mudanças mais sutis estão casas noturnas que trocam de dono e, portanto, de decoração ou de estilo, mais radicalmente. Estão as sutis trocas de comércios nos aluguéis de determinado espaço. Voltando para casa, esses dias, me deparei com uma academia que certa vez fui com um amigo para perguntarmos preços e tirarmos dúvidas para comparar com outras, em um projeto que jamais coloquei em prática e não me arrependo. Porém, a academia não estava mais lá. À minha direita, pela calçada, o espaço abrigava agora uma loja de esmaltes. Bastante distinção ao que era antes, mas no mesmo lugar.
Mais sutis ainda são as mudanças de proprietários desses imóveis. Quem não pode mais arcar com o aluguel, ou se mudou de cidade ao concluir a faculdade. Ou se mudou de cidade ao conseguir um emprego melhor em outra. As casas trocam de dono. Pela Almirante Barroso, Helena não está mais lá, nem Katiuce. O mais alto andar do pequeno prédio verde (enquanto essa for a cor) de esquina possui outros donos. O interior não deve estar mais laranja ou talvez tenha sido mantido, minha visão não alcança olhando ali debaixo, tentando espiar por entre as grades e persianas. Havia decoração com discos de vinil na parede. Artistas diferentes do gosto dos habitantes, mas que davam um ar jovial e realmente decorativo ao apartamento. Harry e Molly, os gatos, não saltitam mais entre os móveis ou se esgueiram pelo chão de forma silenciosa.
Mais sutil do que Harry e Molly talvez a mudança de quem paga o quarto no hotel. Ou no motel. A circulação de pessoas é intensa. Visitantes, turistas, pessoas que encontram parentes, pessoas que encontram amantes, pessoas a congresso, pessoas pelo futebol, pessoas pelo artista que não vai até elas e elas vêm e veem. A cidade se desenha. Quanto melhor a vista, maior noção da cidade. Dos prédios vizinhos, dos carros no asfalto, do circular dos pedestres. Dos apressados, dos frágeis idosos, dos cães de rua.
A cidade e suas sutilezas. A cidade que engole e é engolida. A cidade que devora e é devorada. A cidade que transforma e é transformada.
15/09/2017
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