01/06/2017

Maio em Imagens





Foto: Henrique König

Foto: Henrique König

Foto: Henrique König

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Foto: Henrique König

Foto: Henrique König

Foto: Henrique König

Foto: Henrique König

Foto: Henrique König

Foto: Henrique König

30/05/2017

Heróis imaginários

Uma pessoa emite quatro opiniões, teorias, teses, pontos, ideias, enfim. Eu concordo com três. Devo julgá-la pela que considero errada, preconceituosa ou equivocada E ignorar as outras três? "Não, essa ideia não porque veio daquele que falou aquela asneira." Somos autocríticos para realmente ouvirmos o que os outros dizem ou para ouvirmos o que nós mesmos dizemos? Realmente damos espaço às desculpas ou ao aprendizado? Procuramos a perfeição? Procuramos heróis? Ou procuramos aprendizado e evolução? Casos e casos. Questionamentos, meus caros.
Foto que ilustra o texto "A (des)construção do Herói", de Luiza Drummond.

14/05/2017

Spike Lee on Rio de Janeiro

Foto: Henrique König


Estava no Rio de Janeiro, não havia dúvida. Mais uma aventura por lá. No dia anterior ao grande envolvimento, tinha um passeio por algum morro, não habitado como nas favelas, mas um morro ainda de vegetação e no qual se poderia escalar. Quase me ocorre um acidente, mas passo bem.

No dia seguinte, converso com Clara, minha amiga do bairro de Botafogo. Após uma conversa virtual, ela me oferece chocolate e não tenho como recusar. Estou na casa dela. Limpo o chocolate dos cantos de minha boca em sua roupa. Estou lá sobre o pretexto de um trabalho, de estudo. A família dela interfere, parece circular próxima ao quarto.

A envolvo em meus braços, ela aceita. Mas em seguida seus familiares parecem perceber essa movimentação e justamente se postam a atrapalhar. Ela mesmo parecia constrangida um pouco com a situação e eu não lembrava se ela havia terminado com aquele músico. Mas continuamos a missão do trabalho de estudos. Meio por obrigação, meio como desculpa para nosso encontro. A mãe dela estava na casa, o irmão é mais velho e parece-me um pai ou padrasto com uma muleta, que chega em casa e vai com dificuldades até o quarto deles descansar.

Clara tem uma coleção de dinossauros de brinquedo, verdadeiras miniaturas, pois caberiam uns quatro na palma de cada mão. O irmão dela surgiu ao quarto e derrubou uma caixa, espalhando exemplares para baixo da cama. Meio constrangido por talvez eu estar atrapalhando a rotina familiar, me disponho a juntar, digo a ele que não tem problema. Ele se desculpa pelo atabalhoamento, meio sem querer querendo. Juntamos e colocamos de volta na caixa. Percebo que ele e Clara possuem um método específico de colocar, todos enfileirados, legitimamente ajeitados nas caixas de sapato. Eu apenas os juntava e atirava para dentro mas, percebendo a ação deles, começo a enfileirar da maneira que julgavam correto. O trabalho nos exige minutos e concentração mental e física para enfileirar aquelas centenas de animaizinhos. Quase me arrependo de ter topado o encontro.

Em algum momento, começo fortemente a desconfiar de seus familiares. Já insinuo que nada mais consigo de objetivos paralelos, mas a desconfiança aumenta com as interrupções e entradas deles ao quarto para convite a lanche ou perguntas banais. O ápice da desconfiança surge quando percebo que o pai ou padrasto dela não estava com a perna engessada e de muletas. Com a perna sobre a cama no quarto de frente ao de Clara, uma voz de um narrador me aponta que ele ainda utiliza um modelo de chuteira que se assemelha ao gesso para ficar disfarçada. Ele primeiro pede para restringir os meus movimentos, como se estranhamente eu fosse o aleijado do momento. Então, ele percebe minha desconfiança e parte em ação. Até começa a cambalear fingindo, mas para não me deixar escapar começa a caminhar mais firme.

Até agora não sei qual foi o papel de Clara nisso tudo, mas realmente parecia não saber dos acontecimentos que se seguiriam. Ela me ajuda a encontrar a porta de saída do apartamento. Mal nos despedimos, mas, ao menos naquela hora, esteve do meu lado para facilitar a fuga de seu familiar. Ele me persegue pelas escadarias daquele prédio de paredes brancas. É como uma obra de outro século com suas escadas em caracol, embora moderno. Consigo correr rapidamente e vê-lo somente lances de escada atrás. Chego a me lançar de um andar ao outro e incrivelmente não me machuco como se tivesse habilidades de parkour.

Em um determinado andar que ainda me parece bastante alto, todos travamos. Há outros jovens no local. Há um banheiro logo em frente na continuação das escadas. Um banheiro limpo, igualmente ladrilhado e esbranquiçado como os demais andares. Era uma boa tentativa de esconderijo do maníaco que me perseguia. Há também como se uma lan house ou algumas pessoas mexendo em computador no mesmo andar, alguns metros à esquerda da entrada dos banheiros. Todos ficam hipnotizados ou perplexos. Mais do que isso! Ficam horrorizados pelas cenas que seguem. Há como um sistema para hackear sites e a internet fica poluída de cenas de tortura a jovens, pedofilia e violência sexual. O momento de maior tensão ocorre quando percebo que algumas das jovens que estavam horrorizadas na saída do banheiro estão sendo gravadas no monitor: tudo ocorrendo muito próximo a mim. No mesmo prédio. No mesmo andar. Na mesma sala.

Fico paralisado de medo. É uma grande operação que toma conta da internet, expõe imagens para o mundo todo e tortura jovens de diferentes formas. Na primeira vez que olhei a sala ali na frente, eram quatro jovens sentadas e amarradas. Voltei meu olhar aos monitores dos demais paralisados e quando torno a olhar para sala, são mais jovens. Um encapuzado comanda as ações contra os adolescentes imobilizados.

Percebo que minha caçada não havia terminado e tenho que voltar a fugir e relatar às autoridades. Um flashback surge em minha mente e associo diretamente o familiar de Clara como um dos responsáveis, talvez o chefe da grande operação, da grande quadrilha, da ação desses hackers que vendem essas imagens torturantes para movimentar dinheiro. Mais do que isso, propinam pessoas para silenciar as manobras e continuar com essa grande rede, que atravessa a deep web para figurar e ingressar na internet mais conhecida. Essa rede criminosa que recolhe jovens para seus planos malignos. Meu quase acidente no dia anterior na escalada do morro pode ter sido uma manobra para me silenciar. Mas pelas descobertas feitas e pela situação que já envolvia milhares (talvez milhões!) de reais e a vida de tantas pessoas, precisava prosseguir e fazer a coisa certa, custe o que custasse.

Eu estava sendo perseguido para evitarem que descobrisse as coisas e para eu fazer parte dos capturados, os torturados com as imagens divulgadas. Me resta fugir e pressinto novamente a ação do malfeitor próximo a mim, talvez a poucos metros, a poucos andares. Corro e desço, corro e desço até finalmente encontrar a portaria. Sabia que o prédio estava grampeado e muitos dos funcionários ou moradores deveriam saber das movimentações criminosas. Olho apavorado para o porteiro, mas ele não esboça reação. Passo pela portaria envidraçada, que aparenta uma clínica por manter o branco em predomínio. Chego até a porta gradeada e aperto todos os botões, até os do interfone para desesperadamente liberar a porta. Consigo ouvir o barulho metálico e puxar a pesada abertura para um breve sentimento de liberdade. Estou nas ruas do Rio de Janeiro e preciso de ajuda.

Embora eu sigo correndo a passos largos, tenho em mente que não posso contar com qualquer pessoa. Me passa pela cabeça que a operação é muito grande, tomou conta da internet pelo país e eu estava diante das fontes. Tenho meu testemunho, precisaria de mais provas. Quem acreditaria em mim? Em quem posso confiar? Falar com a pessoa errada ali na volta seria o fim da linha. Não falar e ser pego pelos capangas, igualmente. E o qual o papel de Clara nisso? Desconfiava? Ela sabia? Ou salvou minha vida ao me deixar sair na hora certa? Esqueça Clara, pense, pense.
Foto: Henrique König

Passo por lojas e comércios abastados de produtos baratos e varejistas. É como uma manhã ou tarde normal para feirantes e vendedores. Há muito movimento nas estranhas calçadas, desconhecidas de minha pessoa. Meus olhos mal captam tudo que está acontecendo e segue a acontecer em volta. Eu olho e não encontro a ação dos sequestradores. Para acionar autoridades e tentar desqualificar e prender o bando, eu precisava de mais provas. Não conheço as ruas em volta, mas me surge uma única ideia: preciso voltar ao prédio.

09/05/2017

Domingo de Términos

O churrasco estava por acabar. Alguns convidados, possivelmente os familiares, reuniam as sobras em recipientes para seguir com eles em viagem, no pensamento futuro de novas refeições. Isopor, plástico, isopor, organização, cabe mais um, leva você, pode levar. Aperto de mão, abraço, dois beijos, talvez um só, um aceno à distância. Era o crepúsculo da festividade. Preparava um breve discurso, mas o ex-colega, na atualidade de formando, de formado e de anfitrião tinha mais convidados. Mal consigo pronunciar o lead do que eu queria dizer. Considero bastante as oportunidades de desenvolver tarefas que ele me deu ao longo do curso de Jornalismo. Hashtag gratidão.

Esperava por mais recém ex-colegas no churrasco, que até o mês passado eram colegas de curso e de classes que deixamos para trás no findar de abril. Sobravam eu e um casal de ex-colegas. Ele terminou o curso no mesmo prazo que eu. Antes de começarmos a trajetória em 2013, foi uma referência vê-lo pelas redes sociais como um redator de renome na internet. Ela, por sua vez, tornou-se parceira dele em maior tempo que a duração de nosso curso. Logo no primeiro ano de ingresso estreitaram relação. Após dois semestres cursados conosco, ela seguiu para outro rumo de carreira acadêmica, mas o casal manteve-se e desfrutariam da simpática carona de meu pai pela primeira vez, se não me falha a memória.

Durante o período de Jornalismo, meu pai me acompanhou em idas e vindas, de maneira que muitos dos colegas em maiores ou menores graus de amizade e reconhecimento à minha pessoa também foram agraciados com a poupança de dinheiro de ônibus, de maior segurança ao trajeto ou de simplesmente poupar cansativas ou arriscadas caminhadas.

Antes que a camionete de meu pai deslizasse prateada sobre as areias do bairro da praia, conversávamos o que chamaríamos de últimas resenhas. No tom de despedida, o ex-colega confessou o sentimento que lhe atingiu em cheio nas palavras do anfitrião da festividade. "Só senti que acabou quando me perguntou se eu ia na aula amanhã." O tom sarcástico de nosso ex-colega, anfitrião e então já ex-anfitrião da tarde foi uma paulada que me atingiu, mesmo tomando conhecimento das palavras somente em compartilhamento do outro amigo. Realmente nos dávamos conta: não haveria mais aulas.

As fichas caem aos poucos. Levo comigo essa dentre poucas certezas que nos cabem em bolsos e na alma. As fichas demoram a cair em relação à morte de um parente ou de uma pessoa próxima, um amigo ou uma amiga. Demoram a cair. Demoram a cair as fichas das trocas de emprego ou de cidades. Demoram a cair as fichas das etapas que concluímos e que dão início a novas etapas. As promessas de reencontros quase sempre são vazias. O afastamento das pessoas que faziam parte da etapa concluída é praticamente inevitável. Os mais otimistas talvez colham pedras para replicar esse trecho que escrevo, mas realmente trata-se de mutações, transformações e adultérios no caminho. E as mudanças de caminhos e de calçadas requerem mudanças nos ciclos e nas pessoas presentes neles.

As despedidas são veladas como são veladas as palavras que tomam um recorte comum. Nos velórios, os pesares, os pêsames, os sentimentos e consentimentos em relação aos mais necessitados de conforto espiritual na hora. Nas festas de troca de ano, os desejos de próspero (palavra que só se utiliza em réveillon), bem sucedido e estimado ano pela frente. Assim como os populares "parabéns e tudo de bom" nos aniversários.

No espaço que trafega na minha mente, via pela estrada de concreto que liga a praia ao centro e vice-versa, como se aproximava o destino final do casal, que dividia comigo o banco traseiro da camionete, enquanto meus pais ocupavam os lugares à frente. Estava na hora de saltar. No breve discurso que novamente ensaiei no silêncio absorto de meus pensamentos, consegui dizer ao companheiro jornalista quando eles desceram do carro: "nos vemos por aí", ou coisa parecida.

O domingo desses términos de etapa concluída trazia o anoitecer, que é mais veloz nas proximidades do inverno. O azul toma conta em tons mais acinzentados, meio leitosos. O pouco que sobra de luz é como uma recoberta camada amarelada que não tarda em sumir e trazer de vez a escuridão. No anoitecer daquele domingo ainda acabou a sequência dos títulos gaúchos do Internacional, com o Esporte Clube Novo Hamburgo sendo campeão do estadual pela primeira vez em sua centenária história. O domingo dos términos marcava novas etapas. Novas etapas que demoram a nos esclarecer as coisas que ficam e que saem. As pessoas que ficam e que saem. Como demoram as fichas a cair de que o Internacional teria pela frente sua primeira participação na Série B e o Novo Hamburgo poderia enfim degustar sua primeira conquista de tamanho renome. Términos e inícios.

01/04/2017

Março em Imagens

Foto: Henrique König

Foto: Henrique König

Foto: Henrique König

Foto: Henrique König

Foto: Henrique König

Foto: Henrique König


Foto: Henrique König

Foto: Henrique König


16/02/2017

Ditadura do comportamento social

Há pessoas que trajam armaduras

No dia a dia para sobreviver


E quando despem-se delas


Na liberdade de ser o que são


A ditadura se esfacela

13/02/2017

O Adiamento e a Angústia

A Descoberta Do Adiamento
Me Traz Um Conforto Repentino
Um Alívio Reconfortante
O Primeiro Drible No Destino
E O Tombo Logo Adiante

A Descoberta do Adiamento
Em Breve Sonho Delirante
Mas A Queda Da Sequência
É No Cimento E Não Distante

A Descoberta Do Adiamento
É A Certeza Não Obstante
Da Angústia Também Adiada
Mas Novamente Cavalgante

03/02/2017

Fotos de um Janeiro Pelotense

Foto: Henrique König


Foto: Henrique König




Foto: Henrique König



Foto: Henrique König


Foto: Henrique König

Foto: Henrique König

Foto: Henrique König


Foto: Henrique König

Foto: Henrique König


Em Guerra

Estava eu acompanhado de meu amigo de rádio em uma missão ultrassecreta. Subíamos por um forte de madeira com escada interna no meio da floresta. Era de noite e a iluminação era péssima. Havia silêncio em volta. Próximo a nós, um senhor muito mais velho também dava ares de velho lobo de caça e recordo que ele me pediu silêncio para não atrair os inimigos. Era uma missão de guerra, sem dúvidas.

Eu subia apressadamente as escadarias atrás de meus colegas, mas, ao chegarmos ao topo na visão que eu imagino ter nas casas nas árvores, víamos os soldados se deslocarem em pequenos grupos e batalhões logo abaixo. Meu amigo é que informa a emboscada e precisamos descer com o dobro da velocidade que subimos.

Chegamos ao pé da escada e há uns bancos de madeira juntos à parede. Nos deslocamos de maneira definitiva até eles, quando não havia mais tempo. Os guardas já nos cercavam pelo lado de fora e certamente viam a nossa movimentação em algum momento, visto que a casa possuía aberturas como grandes janelas, mas totalmente escancaradas.

Me sentei ao lado de meu amigo e esperamos a ação dos soldados. Me fingi de tranquilo e tentei aparentar que estava dormindo. Eles me cutucaram para acordar, bateram em meu ombro e percebi que o disfarce da situação não havia funcionado. Fomos capturados.

Já com o amanhecer em nossas vistas em um dia claro, fomos conduzidos por entre centenas, talvez milhares de crianças em um campo extenso, como se fosse uma colônia de férias ou simplesmente nosso campo de concentração após a captura.

Os soldados riem e caçoam enquanto somos arrastados, literalmente, pelo chão. A tática de tortura seria um pisoteamento comandado por eles e posto em prática pelas crianças. Teríamos poucas chances nesse fim trágico. Porém, ao nos deixarem caídos e largados pelo chão, me percebo com uma oportunidade de escapar. Começo a rastejar, primeiro próximo de meu amigo. Eu o ultrapasso e continuo rastejando, jogo um pouco de areia por cima de mim para tentar, em vão, me camuflar. Mas incrivelmente vai dando certo. Olho para mim mesmo e estou com um antigo moletom verde. Tento parecer natural mediante aquilo tudo. Me afasto das crianças que nos matariam e consigo correr para onde ônibus de excursão estão saindo. - EI, EI! Preciso subir aí! Meu irmão está nesse ônibus!

Escolho um aleatório e torço para conseguir sair dali sem ser descoberto. Não sou barrado, visualizo os ônibus à procura de um lugar, nervoso, entre a esperança e a desesperança. Enfim, uma voz infantil meu salva. - Aqui (meu apelido de infância). Aqui, estou aqui, venha. - Um garotinho pega em minha mão e me conduz para um ônibus mais atrás na fileira. Ao entrar, ele se transforma somente em uma van. A criança fica por ali e fingindo ser o irmão pequeno que nunca tive e jamais havia sido tão necessário para escapar do inferno da captura e da morte que viria.

Uma professora de português o conduz. Eu a conheço, mas ela parece não se importar com minha condição de fugitivo. Passei pela missão de fuga e o plano deu certo. Ao lado, uma loira muito bonita está sentada à minha esquerda. Trocamos algumas palavras. Saímos da condição de zona rural e logo ingressamos de volta à cidade. Ainda na estrada, no que parece um fim melancólico de tarde, com sol a se esconder pelo horizonte, tomo a iniciativa de beijá-la e justifico a ação corajosa - tanto quanto a fuga - como "amanhã não sei se estarei vivo", digo em pleno pensamento e exercício da condição de fugitivo de guerra. Ela aceita e até relaxa pelo banco do veículo. Ao lembrar, não me parece prudente que meu pequeno e salvador irmão desconhecido tenha presenciado, mas na hora foi puro impulso.

A professora conduz a van pela cidade, passa por ruas lotadas pelas calçadas, com bom asfalto e bem arborizadas, em uma imitação melhor do que o Centro que conheço. Há muita e muita gente nas ruas, como se houvesse uma evacuação ou simplesmente a celebração das pessoas pelas calles. Ronaldinho Gaúcho aparece à direita do veículo, protegido por somente um segurança e sem chamar muita atenção, apenas a mim, que comento o fato com os demais ocupantes da van.

Ela se desloca por uma interminável rua reta que chega até o que eu chamo de zona norte. A noite se acentua com a escuridão e a luminosidade das ruas também piora. Comento o fato de como algumas quadras de avanço no trajeto interferem nas condições de vida dos moradores dali, inclusive da loira que precisa se despedir. Não lembro ao certo se marcamos algo para algum futuro inexistente. Fico feliz pelo esforço na oportunidade, antes da hora de saltar.

Encorporado como personagem principal de um filme machista e patriarcal, eu, guerreiro guerrilheiro de guerra, estou disposto a livrar minha própria pele das garras da crueldade, para ajudar meu povo e ainda conquistar o coração da amada. Meu fiel escudeiro e salvador irmão desconhecido é como se fosse um anjo que desaparece nas cenas +18. Felizmente, ele não está presente para depois que a professora de português bate o carro em uma duna na areia de uma praia que surgiu tão aleatoriamente como a história toda.

14/01/2017

Eu Admiro o Senhor, Seu Flávio

Era noite em Pelotas e muitas histórias da noite em Pelotas ocorrem no Bar do Zé. O encontro das ruas Álvaro Chaves e Conde de Porto Alegre abriga um dos locais em que o pessoal vai para colocar cerveja para dentro e papo para fora.

Quando meus amigos e eu estávamos em pé na exata esquina, uma voz se aproxima da gente: "Por que tu usa essa barba?". Percebo que a pergunta é endereçada para mim e começo a catar palavras que sirvam de resposta. Não conheço o sujeito de barba muito maior do que a minha (o que não é difícil ter). Não sei se trata de humor ou faz um sério questionamento.

"É que ela cresce assim", respondo. "Não", ele me diz, "é porque ela é tua". Minha ficha cai no estalo de segundo seguinte e logo nos colocamos a rir. Após uma breve apresentação no estilo excêntrico do senhor de aparência no entorno de 50 e poucos anos, ele dirige outra pergunta do mesmo naipe, desta vez para meu amigo.

"E por que estás com as mãos no bolso?... Porque tu tem bolsos." Pelo menos não fez a piada com 'porque tu tens mãos'. E com as mãos que seu Flávio tem, ele junta latinhas e copos plásticos nas imediações. É muito material e logo o saco preto que ele carrega já fica cheio. No breve espaço de noite que convivemos naquele sábado, percebo o jeito dele como cordial, com um sorriso, mesmo distante da aparência das propagandas de odontologia, a se abrir.

Meu amigo me contou na semana seguinte que o seu Flávio já era conhecido de lá. Contou que uma vez conseguiu a brincadeira com sua namorada. "E por que estás sorrindo?..." Ela, conhecedora das anedotas, respondeu: "Porque tenho dentes". "Porque estás feliz", ele completou.

Seu Flávio nos deixou feliz na breve conversa. Contador de histórias. Ele tem dois filhos. Duas filhas, se não me engano, para ser mais preciso. E duas netas. Mora ali para trás daquele final de centro e pleno bairro Porto. Bairro Porto de raiz. Das primeiras ruas, casas e casarões da cidade de Pelotas. Da proximidade imediata com o canal São Gonçalo. Ali pertinho mora seu Flávio, que aponta para a última quadra da Álvaro Chaves.

Resgata da memória boas lembranças, que devem contemplar a mais ouvintes atentos. Oferece histórias de quem vive muito pelas ruas e tem a situação de casa como sinônimo de teto para dormir. É difícil calcular sua idade, pela tamanha barba e pela pele judiada de sol e serviço. Seu Flávio relembra suas histórias com ícones da música e do cinema brasileiro.

A pelotense Glória Menezes. Um show recente do músico Zé Ramalho, que ele comenta ser fã. Queria muito assistir e se colocou próximo ao Theatro Guarany. Espiou e ouviu o que deu pelo lado de fora. Na saída, conseguiu apertar a mão de Zé Ramalho. Comentamos sua aparência. Também excêntrico e com suas genialidades. Tal qual nosso personagem principal da narrativa.

Uma das histórias que ele não esquece é com Rita Lee. Há muitos anos, a cantora esteve em Pelotas. Seu Flávio gostava da música, gostava muito de Os Mutantes, grupo a que ela pertencia. Se pendurou no ônibus, chamou a atenção, mas dessa não conseguiu maior contato. Conseguiu mais uma de suas inúmeras histórias. Um Indiana Jones a desbravar e conseguir aventuras na pequena selva de pedra pelotense.

Ele destaca que, para conseguir contato com esses famosos, não é necessário uma roupa melhor. Ele se mostra simples e humilde. Destaca que não pode é estar com muitos bolsos, com atitude suspeita, por exemplo. Daí os seguranças desconfiariam e não o deixaram se aproximar.

Carismático que é, na facilidade de puxar assunto e trazer suas histórias pelotenses e portuárias, seu Flávio deve conseguir as funções de aproximação para saciar esse desejos com maestria. Lá pelas tantas, saca um pouco de bebida alcoólica de sua garrafinha. Naquela noite, diferente de quando se aproxima de celebridades, estava com muitos bolsos.

Nos surpreende, bebe um gole e logo tem mais histórias. Também acende um cigarro adiante. Não com isqueiro, mas com uma caixinha de fósforos que guarda, a revelar mais um mistério consigo. Confesso que foi uma das primeiras vezes que vi um cigarro ser aceso com fósforos, tão comum é presenciar com o isqueiro.

Por baixo do agasalho vermelho da noite, é revelada uma camisa do Grêmio Atlético Farroupilha, o clube mais querido da cidade, o primeiro time de poucos e o segundo de quase os outros todos. Seu Flávio a exibe com orgulho após eu apoiar sua decisão de usá-la. Conversamos um pouco sobre. Em outra noite que o encontrei, novamente estava com a camisa. Como era mais próximo do verão, a camisa já estava mais à vista. Somente na terceira noite que nos falamos é que não estava com ela. Foi nessa, justamente, que revela ter brigado com o presidente de quase todas as épocas recentes, coronel Poeta. Revela ter se afastado.

Conto sobre como sou torcedor do Grêmio e ele também se aponta gremista. E traz mais histórias, dessa vez sobre a final da Copa Libertadores da América de 1995. Disse que esteve lá na capital gaúcha, em Porto Alegre. Foi na vitória do jogo da ida, com o placar de 3 a 1 para o Grêmio no estádio Olímpico. Aventuras de nosso Jones por uma selva maior e pela rodoviária da mesma.

Sem medir esforços, seu Flávio perambula entre esses arredores de sua casa e do bar do Zé, a caminhar e juntar o lixo reciclável para trocá-los pelo sustento. Para suas refeições, para mais força para suas histórias e para reabastecer o combustível escondido em garrafa estranha. Ele conta que já ofereceram água para ele, para aumentar a quantidade de líquido na garrafa. "Mas não é água. É a minha bebida", ele ri.

Piadista e aventureiro, seu Flávio segue marcando história em Pelotas e no bairro Porto. Às vezes, vai às imediações da Universidade Católica para outros movimentos. Os cabelos meio grisalhos e meio pretos, a barba a esconder o gogó. Uma boina na cabeça para assemelhá-lo ao recentemente falecido Fidel Castro. Se parece bastante com Fidel, ao menos no estilo e talvez em pontos políticos de quem enfrenta a vida na condição de minoria.

Quando digo que prefiro a bebida nos copos de vidro aos plásticos, ele defende um ponto positivo. Além de sabermos que o bar teria prejuízo com copos de vidro, pois poderiam ser furtados no ir e vir de pessoas ou quebrados pelos desastrados bêbados, seu Flávio destaca que o vidro, principalmente se fossem fornecidas as garrafas aos visitantes, torna-se uma arma. A voz da experiência de nosso velho lobo. Um sujeito que não teme as agressões e relata algumas histórias e casos de violência presenciadas. Se não me engano, uma facada que levou no bairro Fragata há muitos anos.

Por fim, ao chegar janeiro, ele diz que busca rumar ao Laranjal, praia com o maior movimento na cidade. Fico intrigado se ele faria o ir e vir de lá até sua casa no Porto. Ele conta que não, que busca montar um abrigo para ele na própria praia. Faz amizade com um ou outro da guarda municipal e consegue montar acampamento em uma praça. Muitos podem vê-lo e associá-lo à imagem de sujeira, mal sabendo que é ele quem inicia a limpeza do Porto e da praia.

Por conta de todas essas histórias de um personagem excêntrico, experiente, mas sobretudo divertido e simpático, seu Flávio coleciona conversas e sorrisos das pessoas que param para escutá-lo, sem preconceitos. Sorrisos não somente porque as pessoas têm dentes. Não. Sorrisos porque ele deixa as pessoas felizes.

13/01/2017

Litoral Norte - Setembro

Foto: Henrique König






Foto: Henrique König

Foto: Henrique König


Foto: Henrique König


Foto: Henrique König

Foto: Henrique König

08/01/2017

Uma história de morte com roteiro

Bia comanda a cerimônia, como em um casarão ou uma área de um shopping, que possui lance de escadas em caracol. Comanda como se o seu aniversário, recém passado, se estendesse nesse mês de janeiro. Há mais pessoas, mas ela dá atenção e me recomenda visitar o quarto de dois bebês. Eles são gêmeos, ambos meninos. Encontro a sala correta em uma das passagens pelas portas de um determinado andar. Uma senhora mais velha está propondo arrumações, em um ar experiente de governanta, podendo se tratar de uma empregada ou avó. Pergunto sobre os bebês e ela inicia a história deles sem deixar de lado os serviços de limpeza e organização.

Me teletransporto para dentro de um carro, como se fosse um flashback. No carro, meu pai dirige, minha irmã ao banco da frente, à sua direita, comigo e minha mãe no banco de trás. Passamos por ruas do centro da cidade e temos uma discussão fervorosa, com insultos. Minha irmã pergunta qual a utilidade que tenho com ela. Sinto o tema da discussão e digo para minha mãe que vou me matar. O clima é tenso com o carro em movimento, até ele não estar mais.

Me vejo fora do carro e o vejo sendo colidido lateralmente, com tudo, por outra camionete. A colisão faz chacoalhar o veículo, com alguns vidros saindo e se despedaçando. Perda total no veículo. Relaciono o acidente com Zidezine Zidane e não entendo o porquê. O local é como em um parque ou estacionamento repleto de grama. Os policiais imediatamente aparecem no local e encontro dificuldades em circular entre eles, procurando a cena do crime. Eles parecem não estar interessados e, após uma dificuldade em caminhar entre eles, me apontam o local estimado da procura.

Chego ao lugar apontado, mas já não há mais a família. O flashback se encerra e estou de volta ao cômodo do casarão com lance de escadas. Pergunto sobre como vê-los. Como ver a família? A governanta demonstra pesares e responde com o ar de quem já havia desembrulhado tal resposta outras vezes. Ela avisa simplesmente que: "o impacto foi forte demais...".

Percebo então que todos morreram. Começa a cair a ficha. Na hora, separo um gêmeo dos irmãos para cada um dos pais, entre pai e mãe. É tudo muito doloroso em lembrança e raciocínio e a própria Bia parece não saber lidar, como se ainda os mantivesse vivos na imaginação, conforme ela solicitou para eu visitá-los. O que encontro se mistura entre um berço azul e uma lápide, em uma história que me fez acordar pavoroso.