barracos na frente dos condomínios
domínios privados e fechados
considerados fracos
não tem vez
morador de rua
na calçada fria e crua
hoje era eclipse da lua
não ficou sabendo por aplicativo
viu ao vivo
e ninguém ali viu
que vivia um ser vivo
mas é difícil que seja visto
tipo foto da lua com teu celular antigo
enquanto eu passo por aquele cidadão
colecionante de moedas para um pouco de pão
enquanto isso duas senhoras
pelas grades do condomínio
acionam a tela do celular
dispositivo
da oi, da claro ou até da vivo
estão em outro lugar
que não aqui
e nunca que vão ver
aquilo que eu vi
nunca que vão saber
aquilo que exige
um pouco mais de compaixão
um olhar pro outro
ali deitado no chão
com menos dignidade que um cão
vestido contra o frio
e cagando calçada, cagando outra morada
antes de voltar pro aconchego da sua casa
olhando pra rico com indiferença
título nenhum vai te trazer onipresença
nem imortalidade
tua boca cheia de formiga
quando bater alguma idade
aquilo que tu fazia com alguma amiga
tá distante esse dia
te sobrou só a saudade
no amarelo do costado da fotografia
e um álbum inteiro de incapacidade
de se repetir
tua grana evita dramas
mas não esse aí
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