Chegou como um raio ao cortar a conversa. Eu me afastei do pessoal com quem havia chegado anteriormente e conversava com outras pessoas. E o ser alcoolizado se fez presente, tomando conta do assunto. Àquela hora da madrugada é comum que aconteçam tais episódios, incomuns para as horas de sol ou para os primeiros momentos da noite. Um homem moreno, cabelo raspado, mais velho do que nós. Dos 30 aos 40 anos, qualquer idade poderia ser a dele. Em algum instante ele confessou seu nome, porém, com crise memorial que torna a minha pior do que supostamente a dele, não sei aqui reproduzir a escolha publicada em sua certidão de nascimento.
Chegou tomando conta e se anunciando. Minto. Chegou reconhecendo minha pessoa. Eu sem reconhecer a dele. "Eu te conheço!", exclamação e alarde. Chamou a atenção dos que estavam próximos. Fez meu cérebro dar voltas em busca das memórias que poderiam ser reais daquele personagem. Não as encontrei. Não estávamos sintonizados na mesma frequência.
Perguntou onde eu morava. Indiquei meu bairro Areal. "Mas onde tu estuda?". Estudei naquele mesmo bairro Porto. Meus quatro anos de curso, de graduação. "E qual ônibus tu pegava?". Tinha o da igreja batizada popularmente como cabeluda, a Catedral do Redentor, no nome oficial, rua 15 de Novembro, no Centro. Mas ele insistiu que eu utilizava mais o Benjamin Cohabpel. E de fato utilizei algumas escassas vezes em que subia no início da Andrade Neves, para subir ao Centro e posteriormente ao Porto.
Foi então que devolvi as interrogações para ele. Revelou ser cobrador de ônibus. Revelou mais do que perguntei, como é comum aos seres boêmios. Como é comum aos seres fora de seus ambientes de trabalho, livres da retaliação das regras, das normas de conduta, da fiscalização opressora, das medidas que o enquadram. Revelou que lembrava de mim dessas ocasiões. Falou em salário e concordamos - todos, contando com o amigo que permanecia fiel à espera de retomarmos nosso papo, em meio ao inicialmente importuno do espalhafatoso sujeito - que muitas pessoas formadas na Universidade ou com outras formações não atingiam tais empregos hoje em dia. A situação do país realmente é degradante e deprimente. Ampliam-se os moradores de rua nos caminhos por onde caminho, quando ignoro as paradas de ônibus e resolvo andar pelas ruas.
Tive que me despedir dele logo depois, para não perder a perigosa caminhada da madrugada com as pessoas com as quais cheguei. Cuidado redobrado aos assaltos daquele horário. Nem todos são cobradores de ônibus. Nem todos são honestos. Nem todos aceitam as condições trabalhistas do dia a dia. Quantas vezes será que o ônibus dele já foi assaltado? Naquele mesmo domingo que vinha adjunto à noite de sábado, a tarifa do transporte público na cidade subiu para 3 reais com 35 centavos. Centavos que jamais me acompanham no bolso. Assim, eu incomodo os cobradores em busca de troco. Talvez por isso lembrem de mim.
A situação do país é dolorosa a seus habitantes e obriga muitos (quem sabe também àquele sujeito?) a beber.
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